2 de junho de 2011

Real, virtual, hiperreal, interior

A hiperrealidade me interessa? Creio que não.

O que está além do real por vezes parece um convite à loucura. Porém, as realidades internas são muito mais intrigantes e curiosas.

E o hiperrealismo? Depende.


Apenas quando ele serve para questionar a frivolidade e a não-permanência do pseudorreal das fotos que compartilhamos no mundo virtual.

Não é maravilhoso quando cremos que uma foto (pré-selecionada, modificada e glamurizada) cristaliza um momento ou um sentimento que acreditamos ter? Este é o ponto de partida e a origem do meu fascínio pelo trabalho de Henderson.

Como são lindas as ilusões e os mundos interiores.

31 de maio de 2011

Quíntuplo

Cinco cousas que me aconteceram na minha última viagem.

1. Decidimos ir de van do aeroporto à cidade e fiquei desconfiando do motorista. Por um momento, cheguei a pensar que ele fosse nos sequestrar, mas foi alarme falso. O leve azedume surgido devido ao trânsito se esvaneceu ao percebermos que ele fazia uma pergunta gentil a cada passageiro que descia. Exageramos na gorjeta.

2. Ficamos perdidos no metrô. Algumas vezes. Na mais trabalhosa, fomos parar em um lado pouco interessante do Brooklyn e, até descobrirmos que estávamos esperando o trem do lado errado da plataforma, perdeu-se meia hora. Felizmente chegamos ao nosso destino, mas não a tempo de ver o xou mais legal. Resolvemos mentir pra todos que tínhamos visto e amado a apresentação de uma das bandas mais neo-hypadas do momento.

3. Fomos influenciados por vendedores simpáticos e competentes que nos convenceram a levar itens que nem queríamos tanto, baseados na sinceridade deles: ouvimos algumas vezes que determinada coisa não ficava boa em nós. Quando eles achavam que algo nos servia, comprávamos. Influenciáveis?

4. Fui paquerado por um rapaz lindo, atencioso, perspicaz e gentilmente expansivo. Me imaginei largando tudo e indo morar com ele no Harlem, onde levaríamos uma vida com base na arte e em empregos fúteis porém altamente interessantes, como vendedores de chapéu. Não entendi como ele se chamava.

5. Uma briga amical provocada por situações de estresse viagístico nos levou a elocubrações incríveis sobre a teoria das discussões e perdas de paciência. Concluímos que, por mais que se goste e conheça-se os pontos fracos do outro, ainda assim explodimos e machucamos quem gostamos por não conseguirmos segurar nossos próprios impulsos agressivos.


You Would, foto de Miranda July

Quis ter uma vida em Nova York.

30 de maio de 2011

Pólen

O tempo que não tenho usado para escrever aqui não tem sido, de modo algum, improdutivo.

Tenho me alimentado de referências e ideias derivadas, além de nutrir conceitos para um projeto de colaboração artística vindouro.

Pensei agora que a mente é como uma colmeia, cheia de compartimentos nos quais se guarda o mel das ideias. Elas ficam descansando nos seus espaços, sendo amamentadas pelo esforço intelectual ou trabalho braçal, dependendo da inspiração de cada um.

Escultura de John Chamberlain

A arte nunca me falha.


16 de maio de 2011

Calma

O silêncio é a minha maior arma de cura mental.

Há anos que recorro ao não-falar como maneira de organizar e harmonizar os pensamentos.

Permanecer em silêncio tornou-se uma árdua tarefa, devido à dificuldade de não-comunicação via internet também.

Tanta besteira se diz que até o engraçado perde o humor. Palavras que excedem aborrecem na mesma escala.


O paraíso.

10 de maio de 2011

Física

Desde o Big Bang, tudo no universo é um grande processo de recombinação e recriação.

Quem acredita que no mundo das artes seja diferente é ou desinteressado ou inocente. A grande pegada da criação artística são justamente os diálogos intra- e transexpressivos. Um tipo de arte bebe não apenas na sua própria fonte como em fontes diversas das demais expressões.

É neste lugar que entram os clássicos da literatura.

Imagens e ideias literárias têm força incomensurável, pois passam dos livros para os imaginários dos leitores, os quais o transmitem adiante desvinculando-as da sua fonte original até serem recapturadas por uma nova sensibilidade. Tudo se recicla.

por León Ferrari

Leiamos?
Criemos.

9 de maio de 2011

Audição

Pude comprovar recentemente que a minha luta pela escuta tem raízes ainda mais profundas do que eu imaginava.

É impressionante como estar cercado de pessoas incapazes ou que relutam em escutar o que os outros têm a dizer.

Talvez por já ter sido exposto a esse mal desde cedo, desenvolvi os anticorpos que me protegem de pessoas assim quando as encontro por aí.

E mais, isso me fez querer me esforçar além dos meus limites para poder, eu mesmo, não perpetrar um vício tão egocêntrico.

Relation (Riita Päiväläinen, 2001)

Tão incrível como desgastante é perceber que podemos conviver por anos sem nunca dialogarmos de verdade.

3 de maio de 2011

Caindo e aprendendo

À medida que os anos passam, minha tolerância se expande; em todas as dimensões.

Não que eu acredite que eu jamais chegue a níveis búdicos ou jesúsicos, ou mesmo que eu tenha me tornado um guia - a verdade era que minha intolerância atingia proporções gigantescas.

Cousas que antes me irritavam, agora me deixam curioso.

Pessoas que antes me enervavam, agora me fazem rir.

Burrices que antes me enfureciam, agora me dão compaixão.

por Stephan Balkenhol


Um exemplo para a humanidade? Uma inspiração para os irascíveis?

Não, apenas alguém que já quebrou a cara inúmeras vezes.


30 de abril de 2011

Aspirina


Quando a canseira incorporada em dor-de-cabeça se apodera do crânio, a inspiração pode ser a única saída capaz de alumiar o coração.

Se a dor aperta, a cabeça busca a redenção das ilusões costumeiras do sonho.

Porque esquecemos com tanta frequência as cenas recalcadas?

Talvez não demos conta das revelações. Psicanalítico.

Ilustração de Kathleen Lolley


19 de abril de 2011

Parque


Se eu conhecesse a fórmula do sossego mental, juro que engarrafaria tal elixir e venderia. Caro.

Como não conheço, vou fazendo meus passeios pela montanha-russa emocional que é a mente de alguém que pensa tanto como eu.

E mais muita gente, pelo visto.

Baptiste de Bombourg - Volte Face (2010)



12 de abril de 2011

Vivamos?

Várias pessoas me têm dito que o amor tanto destrói sentimentalmente como arrasa nossos corações.

Não sei se concordo.

Apesar de ter sofrido diversas vezes e imensamente por causa dele, gostaria de crer que o amor é mais como as músicas americanas that will set you free do que como esta, que eu amo independente da discussão:


Qualquer que seja a resposta, temos é que vivê-la; mais do que refletir sobre.

Com a lincença poética devida: The lack of love will tear us apart.

31 de março de 2011

V de vergonha

A vergonha-alheia é uma instituição nova nas relações humanas.

Apesar de ter sempre existido, sua recorrência chegou a tamanho ponto que foi criado um termo para designá-la no português brasileiro contemporâneo.

Esse termo foi-me bem útil hoje, tanto semântica como sentimentalmente.

Flagrei minha faxineira, de quem muito gosto e por quem tenho apreço, escondendo um pedaço de chocolate quando eu cheguei perto. Obviamente, eu que tinha comprado a barra de onde o pedaço veio, mas isso não quer dizer, jamais, que só eu poderia disfrutar dele.

Fiquei com tanta vergonha da situação que nem consegui quebrar o clima e reforçar o valor gregário e comunitário que a comida tem para mim. Como jamais esperava que ela não se sentisse à vontade para comer, fiquei embasbacado e calei-me.

O pior é que, se ela agiu assim, é porque muita gente a proibiria de comer.

Fiquei sem lugar.

23 de março de 2011

Vendado



Não adianta fechar os olhos: a realidade força nossas pálpebras.

Esse tapa na cara é bem-vindo porque, se não nos atentarmos ao que se passa conosco e ao nosso redor, a vida já passou.


Por mais coloridas que sejam as nossas vendas, há muito mais cores do lado de fora.


Equilíbrio

Já estava começando o processo de me martirizar mais uma vez pela minha eterna procrastinação - às vezes acredita que é ela que me separa dos grandes sucessos da vida produtiva, quando me lembrei de um fato: se eu fizesse absolutamente tudo o que eu quero ou tenho vontade, não teria mais vida.

É um embate entre aquilo que produzo versus aquilo que poderia criar. De maneira bem difusa, acabo fazendo muitas, muitas coisas. Tenho verdadeiro pânico de me tornar um daqueles que não consegue nunca relaxar, sempre preso pelas responsabilidades.

A culpa me move muito, é verdade, mas, na minha loucura, vou mantendo (alguma) sanidade.

22 de março de 2011

Esculpir



Descascar camadas de repressões e paredes protetivas é um processo de escultura.

A terapia e a reflexão tornam-se o cinzel mais apropriadado para essa empreitada.


Mas a flexibilidade do material é tão variável quanto o quotidiano.


21 de março de 2011

Skrik

Dreams and Belief have gone
Time, Life itself goes on



AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHH